segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

7 Anos de Batalha

Mais um dia se passava no leito do hospital, eu acordei, me deparei com os aparelhos, com os líquidos que eram tirados e colocados no meu corpo através de tubos e toda aquele ritual da quimioterapia que me deixava em um estado péssimo. Um dos médicos me deu uma bandana vermelha, eu não a usava, mas gostava de deixar ela pendurada no meu soro, trazia um estilo e uma singularidade no quarto, e mesmo já sendo o único paciente ali que permanecia 7 anos lutando contra o maldito câncer, aprendi que mesmo naquele estado eu precisava fazer algo não importando se a ação iria fazer meu nariz sangrar ou iria me trazer uma dor insuportável à noite, e era por isso que todos os dias ás 3 horas a Enfermeira Maria me levava para a ala das crianças, sim, o lugar onde eu mais me divertia e trazia diversão, pois para aqueles pequenos guerreiros era bom ter uma imagem de um cara que já estava lá há bastante tempo e que iria dizer: "Não se preocupem, apesar de tudo vocês estão vivos e é por isso que devem persistir...".
Quando minha rotina acabava sempre chegava o Dr. Dante, ele era novo ali e tinha acabado de entrar no hospital mas, nem eu sei o porquê, ele vinha todo fim de tarde conversar, e não como médico, mas sim como amigo, eu acho que era bem no horário q acabava o expediente dele e ele queria ver meu comportamento para melhor ajudar ele a lidar com os outros pacientes.
Conversávamos de tudo, sobre os outros médicos, sobre as enfermeiras, sobre a doença e ele me contava da menina q ele gostava que fazia Bioquímica, até que um dia ele me perguntou o que eu era antes daqueles longos 7 anos e nesse momento eu reparei que nunca havia tocado nesse assunto desde o início da minha estadia ali, neste momento o quarto tinha algumas enfermeiras e médicos amigos, incluindo é claro a Maria, e antes que eu começasse ele perguntou mais uma coisa, era o porquê de ninguém ter vindo me visitar, e eu decidi contar tudo, mas tudo mesmo.
Comecei falando que eu fugi de casa quando era bem novo e que através de trabalho duro aos 20 anos já me encontrava em uma faculdade particular me mantendo e estudando, nisso quando sai de lá eu entrei fundo nos negócios de uma companhia e nunca fiz questão de ter amigos até o momento em que me deparei com 600 mil reais na conta bancária e uma dor gigantesca no estômago, foi quando eu decidi me internar e não dar satisfação a ninguém sobre o que aconteceu comigo.
Todos ficaram abalados e me fizeram várias perguntas secundárias, mas nenhuma trazia uma resposta significativa e quando perceberam que o cansaço havia começado, me deixaram dormir.
Após alguns meses na rotina diária, houve uma pequena surpresa, pois quando eu acordei estava em outro quarto e ele estava completamente limpo, no início pensei que havia morrido, mas percebi que eu havia sido transferido, e ao tentar chamar Maria para começar o maior drama de todos, muitas pessoas entraram no quarto, as crianças, os médicos, as enfermeiras e sim, várias pessoas da minha antiga vida que um já trabalharam comigo, naquele momento fiquei muito emocionado e ameacei Dante de cortar as bolas dele fora, tudo com muitas lágrimas nos olhos, tanto eu quanto Maria e lá ficamos, o dia inteiro conversando, houve praticamente uma festa e foi quando eu lembrei que era meu aniversário realmente e por não celebrá-lo por tanto tempo eu mesmo havia esquecido.
Os dias form passando e agora eu recebia visitas razoavelmente, até que um dia eu me senti muito mal mesmo, não conseguia parar de sentir muita dor e tudo estava muito embaçado e preto, não entendi o motivo, mas naquele dia as crianças foram me visitar e tiveram q se despedir muito rápido, Maria estava chorando muito e Dante também mas ninguém me deixava vê-los, foi quando eu percebi o que estava acontecendo.
Após receber a visita dos colegas de trabalho que continuaram vindo, eu chamei a todos e Dante e Maria ficaram ao meu lado com os olhos inchados, disse à eles que era para parar com a "choração" e para ficarem tranquilos pois todos sabíamos que aquilo iria acontecer em alguma parte da minha estadia ali. Após todos me darem um abraço um pouco fraco para não me machucar, eu lembro de que um sono muito forte veio em min e tive que parar de piscar. Foi minha última memória e a mais aconchegante. 

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